Numa rua escura Paola caminhava apressada.
Estava atrasada para o seu compromisso.
Não sabia do que se tratava, mas havia recebido uma ligação, solicitando urgente o seu comparecimento naquele endereço.
Estava assustada, sua vida ultimamente não estava fácil, um turbilhão de coisas acontecendo ao mesmo tempo, sem que ela conseguisse parar pra refletir.
O vento frio, a garoa, e aquela escuridão de inverno, davam mais peso às suas angústias.
Parou em frente ao endereço. Observou que era um portão alto negro como a noite que se intalara. Que coisa estranha.
Porque a urgência num lugar tão afastado.
Prestando bastante atenção, viu que por detrás daquele muro, havia um casarão antigo, daqueles que ela sempre dizia querer morar.
Estava tudo escuro a sua volta,e apenas uma luz na janela da sala indicava que havia alguém por lá.
Tocou a campainha e esperou apreensiva .
Quem será?
Uma senhora de olhar terno, aspecto simpático e uma voz adocicada de vó, veio atendê-la.
- Boa noite, vc é a Paola não?
- Sim sou eu.
- Estávamos te aguardando, entre por favor.
Ao mesmo tempo que sentiu um conforto inexplicável, o pavor tomou conta do seu corpo e ela começou a tremer.
- Minha querida, tenha calma, não é nada demais. Só precisamos conversar com você.
Chegando à porta do casarão, sentiu cheiro de comida de mãe. Lembrou-se da sua, que estava tão distante, morando em outra cidade.
Quando adentrou a sala principal, era como se tivesse se reportado para um tempo longínquo, como num filme de época. Era como se estivesse entrando na casa de Scarlett O´Hara do filme "E o vento Levou".
Até deu um sorrisinho de canto de boca, imaginando a cena, mas logo voltou a si.
Chegando lá viu algumas pessoas sentadas no sofá, não sabia quem eram, mas teve a sensação de conhecê-las.
Conduzida pela senhora com cara de vó, sentou-se tb para aguardar.
Ficou por um tempo quieta, mas não é de sua natureza não perguntar coisas.
Assim que teve oportunidade, começou a puxar papo.
-O que vocês estão fazendo aqui?
- Viemos te ver.
- Me ver? como assim? Eu os conheço?
- Sim, mas talvez não deste tempo..
Aquele papo causou arrepios em Paola. Ela ficou pensando se estava em algum filme de terror, se realmente era sério, ou se as pessoas perceberam o seu pavor e resolveram brincar.
O fato é que ainda que pensasse isso, ainda que tivesse certeza de nunca ter visto aquelas pessoas, Paola, no seu intimo, sabia que as conhecia.
Esperou por meia hora, quando a senhora com cara de vó a chamou.
- Venha minha querida. Chegou a hora.
- O que está acontecendo senhora? Como se chama?
- Se acalme, não é nada do que você ja não saiba, e me chamo Emilia.
- Como posso ficar calma se não sei o que está acontecendo?
- Você confia em mim?
- Sim.
A resposta saiu da boca de Paola sem que ela pudesse refletir sentindo que era a mais pura verdade.
Paola seguiu D. Emilia por um corredor iluminado por uma luz bruxuleante e levemente perfumado. Ao final do correrdor viu uma porta entreaberta com uma iluminação um pouco mais forte. Foi sentindo uma energia boa, como há muito tempo não sentia... uma paz....
Quando entrou na sala, ficou muito surpresa, as pessoas que anteriormente estavam aguardando com ela na sala, já estavam nesta sala também, e por incrível que pareça imediatamente começou a reconhecer um por um.
Primeiro tio João, Vó Emilia, Tia Angelina, Vô Benedito, Vô Sebastião, e outras pessoas que sabia que já conhecia de longa data, mas que não conseguia dar nomes. Tinha certeza que todos eram pessoas que ela amava, e que a amavam também.
Sentou-se no lugar reservado a ela, e esperou.
Em cinco minutos entrou na sala um homem novo, um rapaz muito bonito, porém com uma presença muito forte. Percebia-se o respeito dos demais com aquela criatura.
Ele olhou bem dentro do olho de Paola e perguntou:
- Lembra de mim?
Ela lembrava. Uma lágrima de emoção rolou sem que conseguisse conter.
- Gabriel...
- Sim minha querida, sou eu. Viemos aqui hoje, para falar com você, para falar ao seu coração, eu disse que nunca te abandonaria.
- Gabriel... meu mentor amigo, me explica o que esta acontecendo aqui...
- Paola, ouça, só nos reunimos aqui para te lembrar que você não esta desamparada, que estamos juntos de você em todos os seus passos, que sempre te protegemos. Porque tanto desespero? Porque tanta tristeza?
- Eu não sei Gabriel, em minhas orações peço a Deus que me oriente, mas às vezes não vejo saida.
- Minha querida, queremos te mostrar uma coisa.
Neste momento, uma tela, de um material que não se identificava se abriu a sua frente, e nela começaram a aparecer cenas da vida de Paola, que ela já havia esquecido.
Começando com o vô Benedito, este ela so conhecia por fotos, mas lhe foi mostrado todo o carinho que ele lhe mandava em sonhos.
Paola lembrou das vezes que na infância contava a sua mãe que estivera brincando com um senhor muito bonzinho, que sempe lhe trazia flores que ela nunca via por ali, e que deixava os seus sonhos mais agradáveis.
Em seguida, foi o vô Sebastião quem apareceu no telão. Ele em seu quarto rezando para que sua filha (a mãe de Paola) tivesse um bom parto, pois ele sabia que não conheceria a netinha, porque estava muito doente. Mas Paola pode ver, o quanto de carinho ele a dedicava em suas orações e que foi isso, que a fez sobreviver quando ao nascer teve complicações.
Quando apareceu tia Angelina, ela se lembrou imediatamente de sua infância ... viu a cena em que pedia pra sua mãe pedir a banana que ela so comia quando ia até a casa de sua tia. Sua mãe quase morria de vergonha e tia Gilina ria de dar gosto.
Olhou de canto e viu um sorriso iluminando o rosto dela.
Agora era vez do tio João, nessa hora ela não aguentou e caiu no choro, fazia quase oito anos que Tio João tinha ido embora, e ela sentiu um aperto em seu peito, sempre teve a sensação que poderia ter feito mais por ele, mas era tão jovem.
Quando apareceu, olhou imediatamente pra ele, e os dois, com um sorriso cumplice, riram um para o outro.
A cena que veria tinha certeza de qual era.
Viu ela, seu irmão e seus primos no carro com o tio João, e todos ansiosos para saber qual era a aventura que viria. Tio João sempre os levava para lugares mágicos, contava historias fantasticas e eles se divertiam demais.
Nunca, nuinguem conseguiu suprir o que o tio João fazia por eles. Ele era uma criança grande. Um ser - que de tão iluminado - se perdeu nas bebidas, mas ela tinha certeza que Deus tinha tido piedade dele quando foi para o outro mundo.
E por ultimo, foi a Vó Emilia.
Neste momento o telão ficou mais forte, e as cenas que apareceram, fizeram Paola chorar de tanta saudade.
Eram momentos que o tempo ja tinham apagado de sua memoriam, e outros que ela tinha vivos na lembrança.
Sem duvida nenhuma, aquilo que estava acontecendo, era um privilegio na sua vida.
Via sua avó com ela bebê nos braços, com um olhar de ternura inexplicavel. Viu o quanto sua avó a defendia, relembrou os almoços, e os tomates que ela picava, coisa que ja tinham apagado de sua lembrança
Viu sua avó a levando para onde ia...
E isso so fez aumentar a sua saudade.
Quando o telão se fechou, o ambiente estava ilumindado por uma enegia que Paola não conhecia, mas que causavam uma senasação de bem estar que nunca sentira antes.
Foi Gabriel quem falou.
- Minha queria, viu como estamos presentes? Não duvide. Não esmoreça. Sua vida é repleta de amor. A terra é um mundo de provas e espiações, vc bem sabe. Não se entregue, tenha força. Nós sempre estaremos contigo. Somos ligados pela eternidade, e enquanto estiver nesta prova, estamos aqui, orando por você. Não perca a fé e a esperança de que as coisas melhorarão.
Não se perca de você Paola. A conversa urgente que teriamos, era simplesmente pra te lembrar que não se deve perder de você mesma.
Olhe o quanto foi amada, porque a sensação de vazio?
Olhe o quanto foi querida, pq a sensação de solidão?
Olhe o quanto é amparada, pq o desespero?
Tenha fé minha querida, tenha paciencia ainda que pareça que a dor nunca vai passar. Aproveite estes momentos para o aprendizado.
Em suas orações peça sempre para ser levada a um local de estudo.
São estes os remedios que precisa tomar.
Tenha fé.
Nenhuma situação é por acaso, você só esta nesta situação, pq pode passar por ela.
Confie Paola.. Confie...
Ela deu um pulo, olhou do lado e estava em sua cama... o ambiente ainda perfumado. Sentia nitidamente as energias dentro do seu quarto e teve certeza de que aquilo não tinha sido apenas um sonho.
Teve certeza de que a vida não é para ser deperdiçada, e teve mais certeza ainda de que seu compromisso estava apenas começando....
Sentou na cama, e fez uma prece de agradecimento a Deus pela oportunidade... Olhou pro teto e viu o semblante de Gabriel a sorrir.
Lhe mandou um beijo carinhoso, deitou e retomou seu sono...
Confie Paola, confie...
Patricia Pereira
31/03/2009