Aquela era uma festa muito aguardada pela sociedade local.
Santine faria 18 anos.
Era costume da época apresentar a bela moça que entrara na juventude a todos da sociedade, principalmente aos moços solteiros, disponíveis e de boa família.
Todas as amigas de Santine estavam em êxtase com a expectativa do baile.
Naquela semana, a pequena cidade já estava um alvoroço. Mães com filhas a caminhar pelas lojas e bazares a compra de contas, cortes de tecidos franceses trazidos especialmente para a ocasião, luvas de seda, bordadas ou não, brincos, colares, e outros penduricalhos que tanto as agradava.
E os chapéus então! Ah! Os chapéus, finamente ornamentados. Uns com discrição e outros com grandes plumas chamando atenção de quem passasse por ele.
Mas Santine não estava feliz.
Até um ano atrás, este era o dia mais esperado de sua vida. Sabia desde pequena que seu baile de 18 anos seria o mais bonito, o mais disputado, o mais esperado mas hoje isso não importava mais.
Há aproximadamente dois anos, conhecera Rodolfo.
Um moço bonito, de olhos amendoados cor de mel, pele morena, dentes alvos e um corpo bem torneado.
Seu encontro com Rodolfo não foi propriamente um encontro, foi um acidente literalmente.
Santine voltava da escola distraída pela calçada, quando sentiu um baque, e viu seus livros de latim e francês voarem para o meio da rua, sentiu seu joelho bater no chão, e esquentar. Sentiu o sangue correr, quando se deu conta do ocorrido, estava sendo levantada por mãos fortes e quentes como nunca sentira.
Voltando a si, a primeira coisa que fez foi abrir a boca pra gritar, e gritou feito uma menininha mimada.
Rodolfo pediu para que ela parasse e perguntou se estava tudo bem, de uma maneira tão firme e delicada, que Santine se perdeu naquele som, que inebriou seus ouvidos e sua mente.
Ele pediu desculpas, disse que o freio da bicicleta não funcionou, e queria saber se ela realmente estava bem, se queria ver um médico, se conseguia andar, se realmente não havia se machucado.
Ele fez tantas perguntas que ela começou a rir sem parar, deixando Rodolfo com vergonha e confuso.
Quando percebeu, Santine corou. Mas aí foi Rodolfo que sorriu.
No minuto seguinte se apresentou, disse que se chamava Rodolfo, que trabalhava na farmácia, na rua ao lado e que estava atrasado.
Ela também se apresentou. Trocaram um olhar intenso, e se despediram.
Os dias seguiram, mas aquele tombo deixou marcas em Santine.
Ela passava todos os dias pelo mesmo caminho à espera de uma bicicleta desgovernada. Mas isso nunca mais aconteceu.
Ela precisava vê-lo novamente. Não sabia por que, mas não conseguia tirar Rodolfo da cabeça.
Será que ele tinha uma namorada?
Onde será que ele morava?
Quem eram os pais dele?
Poderia convidá-lo para ir à festa?
Vinha com estes pensamentos, e como que inconsciente virou na rua da farmácia.
Quando se deu conta já estava entrando. Não havia mais como voltar, disfarçou, cumprimentou seu Juvenal e inventou uma desculpinha. Pediu um preparado para a garganta, que não estava bem.
Seus olhos num segundo percorreram todo o ambiente atrás de Rodolfo e nada. Entristecida, agradeceu seu Juvenal e saiu, qual não foi sua surpresa, quando viu Rodolfo correndo em sua direção.
- Aconteceu alguma coisa? Esta tudo bem com você?
Ela corou.
Disse que sim, e que tinha vindo buscar um preparado para a garganta.
Rodolfo então, se despediu e ia saindo, quando virou-se para Santine e perguntou:
- Você tem namorado?
Santine quase caiu tamanha sua emoção.
Suas pernas tremiam tanto, que teve a impressão de um terremoto passando naquele segundo. Teve receio de Rodolfo perceber.
- Não. Não tenho.
E ele continuou.
- Desde aquele dia, não tiro você da cabeça. Podemos tomar um lanche qualquer dia destes?
Santine mais que depressa concordou. Mas explicou que seu pai era muito bravo e que teria de ser durante o dia, assim que saísse da escola.
Rodolfo pensou um pouco e concordou. Explicou que por causa do seu trabalho, teria um pouco de dificuldade, mas que isso não seria empecilho.
Passaram-se dias, e nenhuma noticia de Rodolfo.
Santine estava angustiada, pela espera. Mais de duas semanas e nada!
Ela chateou-se, mas não havia o que fazer, tocou sua vidinha como sempre.
Três meses depois, Santine vinha com livros nas mãos, bolsa nas costas e mais alguns papeis se equilibrando, quando avistou Rodolfo na porta da escola a sua espera. Teve vontade de largar tudo no chão e sair correndo, mas se conteve como uma dama deveria se portar, assim ensinara sua mãe.
Rodolfo se aproximou, beijou sua testa e pegou os livros que estavam em suas mãos e disse com toda simplicidade:
- Só hoje consegui uma folga pra tomarmos o lanche, me desculpe.
Saíram para a confeitaria mais próxima, sentaram-se, pediram o lanche, e começaram a conversar.
Falaram de tudo. Rodolfo falou de sua família humilde e trabalhadora. Disse que também estudava, mas com sacrifício, e que Seu Juvenal o ajudava como podia, pois como trabalhava com ele desde pequeno, e ele não tinha filhos, o auxiliava no custeio da faculdade.
Santine falou de sua família, contou que seu pai era um fazendeiro que criava gado na região, e que estudava por opção, pois seu pai dizia não ser necessário. Disse que seria a primeira mulher da família a entrar para a faculdade, e que isso estava lhe custando muitas brigas e desentendimentos, mas que era persistente e não ia desistir.
Falaram de tudo, e quando deram-se conta, a tarde ia caindo e a noite chegando de mansinho.
Prometeram se encontrar outras vezes.
Dali em diante, Rodolfo sempre procurava um jeito de lanchar com Santine, e esta por sua vez, sempre tinha algo a buscar a farmácia.
Seu Juvenal, senhor bondoso e bem vivido, aconselhou Rodolfo a não se empolgar tanto assim, visto que o pai de Santine era conhecido pela rigidez.
Mas quando o amor chega, não há quem o segure.
Santine já não conseguia mais esconder sua paixão. Não tinha mais fome, estava sempre com o pensamento em outro lugar, estava avoada.
Foi quando sua mãe a chamou para uma conversa perguntando quem era o rapaz.
Santine se assustou, não costumava falar destas coisas com sua mãe. Deve ter sido uma de suas amigas invejosas. Mas a mãe esclareceu que já vinha observando a algum tempo, que ela estava com um brilho diferente no olhar.
Diante disso, Santine resolveu contar pra mãe que a acolheu e disse não haver problemas quanto à condição de Rodolfo, que ele era um moço conhecido por seu esforço e honestidade, e que tinha certeza que seu pai não se oporia.
Rodolfo, num dia ensolarado, disse a Santine que não conseguia mais sustentar aquela situação e que queria namorar, pediu permissão para falar com o pai de Santine. Ela consultou sua mãe que preparou o terreno.
Rodolfo então foi jantar na casa de Santine para pedir sua mão em namoro, como era costume da época. Seu pai um homem severo, já havia feito uma investigação completa sobre Rodolfo, e viu que o rapaz merecia a oportunidade de estar com sua filha.
Então, desde esse dia começaram a namorar.
Santine e Rodolfo eram só felicidade. Bastava olhar para eles, para sentir irradiar a alegria.
Tudo estava caminhando bem, os estudos de Santine, a Faculdade de Rodolfo, o namoro, quando ela começa a perceber que ele esta um pouco triste.
Tenta saber o que esta acontecendo, porque ele esta assim?
Desconfia e pergunta se ele não gosta mais dela.
É aí que Rodolfo se abre conta que por causa de sua bolsa de estudo, deverá ficar um semestre fora da cidade, para finalizar o curso de farmácia em São Paulo.
Essa noticia gelou Santine. Faltavam 06 meses para o seu baile e eles já haviam combinado que Rodolfo dançaria com ela.
Mas os planos foram por água abaixo, pois, se Rodolfo não fosse pra SP, perderia a bolsa e não poderia concluir seus estudos. E voltar para o baile estava fora de cogitação, uma vez que era um gasto a mais em seu orçamento tão apertado.
Rodolfo avisou Santine que sua partida ocorreria dali três semanas e pediu para que ela o esperasse, pois assim que se formasse, começariam a ajeitar o casamento, e ele pediria sua mão a seus pais.
Santine chorou copiosamente. Mas não poderia impedir Rodolfo de finalizar seus estudos.
Três semanas depois acompanhou Rodolfo até a estação de trem e se despediu com uma dor em seu peito que não suportou.
Chegou em casa e se fechou no quarto não saindo de lá por dois dias.
A mãe preocupada, tentava alegra-la com os preparativos da festa.
Após três meses da partida de Rodolfo, a festa de Santine estava toda encaminhada. Mas nada a alegrava.
Na semana da festa, todos estavam alvoroçados, mas Santine continuava apática, se esforçava para agradar seus pais, mas não conseguia se sentir feliz numa festa onde Rodolfo não estaria.
Chegou o grande dia.
Na hora marcada, o salão estava impecável, os garçons, os maitres, todos a postos para a grande festa.
A decoração estava lindissima.
A mãe de Santine tomou o cuidado de convidar os pais de Rodolfo e suas duas irmãs, para que tudo saísse perfeito. Santine ficou satisfeita, mas não propriamente alegre.
Faltava Rodolfo.
Os convidados começaram a chegar. Cada um mais bem vestido que outro.
O salão repleto!!! Pessoas se movimentando pra lá e pra cá.
Canapés, vinhos, destilados, salgados dos mais variados, tudo estava de extremo bom gosto.
As amigas tentavam alegrar Santine, mas não conseguiam.
Ela escolhera com Rodolfo o corte de tecido que seu vestido fora confeccionado. Verde água era a cor preferida dele.
O tempo passa e a hora mais dolorida para Santine estava chegando: a dança!
Ela havia ensaiado tudo com Rodolfo e agora seria como todas as outras, dançaria com seu pai.
Não que não gostasse, mas era Rodolfo quem queria.
Anunciaram a dança, ela estava a um canto, virada para a parede conversando com as amigas, quando foi chamada a se colocar no centro do salão com seu pai.
Uma roda formou-se a sua volta para que todos pudessem contemplar a dança.
A musica começa. Ela lembra de Rodolfo, havia trocado a musica, pois não queria que sua dor fosse maior.
Seu pai com orgulho a tomou nos braços, e começou a girar.
Não se passou um minuto e a musica que ela havia escolhido com Rodolfo começou a tocar. Ela imediatamente reclamou com seu pai, que não era este o combinado.
Seu pai nem lhe deu atenção e foi girando... Os olhos de Santine encheram-se de lágrimas. Pediu para parar, mas seu pai estava estranho, não lhe ouviu, não ligou pra sua tristeza...
Sem que Santine percebesse, seu pai a levou rodopiando a um canto do salão. Quando chegou, as pessoas saíram da frente e deixaram Rodolfo passar.
Ele estava lindo, no fraque escolhido por Santine para aquela ocasião.
Sem entender nada, santine paralisou.
Seu pai então, lhe disse: Feliz aniversário minha filha. ! E passou-a para os braços de Rodolfo.
Ele carregava nas mãos uma rosa vermelha com um lindo anel de brilhantes na ponta e disse:
- Santine, você aceita casar-se comigo?
Desde este dia, nunca mais se desgrudaram.
Hoje, Rodolfo toma conta da sua rede de farmácias, Santine esta terminando sua faculdade de comunicação, e já esta na terceira gravidez.
Quem disse que a vida tem de ser diferente de um conto de fadas??
Patricia Pereira
15/05/2008
"blogpatriciarp" Pensamentos, sensações, sentimentos, impressões... Se gostou ou não.... Deixe um comentário.
15 de mai. de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
UM PEDIDO EM ORAÇÃO
Sabe Deus, hoje eu queria me abrir com você. É eu sei, de novo... mas eu sei que o senhor me ouve. Sabe, nos últimos tempos as coisas tem...
-
Meu Deus... Graças ao Senhor hoje estou mais forte... Com seu auxílio e sua intervenção, algumas pessoas do passado que tem o poder de me t...
-
Há um tempo certo pra tudo Tempo de plantar Tempo de colher Tempo de arrumar Tempo de atrapalhar-se Tempo de aprender Tempo ...
-
Os dias difíceis são aqueles em que desistimos. Desistimos de nós Desistimos dos nossos sonhos, Desistimos de lutar Os dias difíceis ...
Nenhum comentário:
Postar um comentário