Juliana despertou sem saber onde estava.
Olhou a sua volta, e tentou reconhecer o espaço, os móveis, e percebeu que tudo não passara de um sonho.
Estava em seu quarto, como todos os dias.
Sua esperança, no minuto seguinte, era que realmente não estivesse ali.
Sua vida tem sido uma monotonia só.
Sentou-se na cama, acendeu o abajour, e olhou pra cortina nova que tinha colocado na janela. Realmente ela cumpria seu papel, não deixava uma fresta de sol passar!
Espreguiçou, afastou o edredon colorido e levantou-se.
Era mais um dia, mais uma rotina, mais uma chateação.
Foi até o banheiro, ligou o chuveiro, deixou a água correr para esquentar bastante. Pegou a escova de dente, a pasta, o xampu e entrou.
Deixou a água quente cair sobre seu corpo, e aquela sensação fez com que seus pensamentos voassem.
Já havia dois anos e meio que estava sozinha. Porque será? Ela se perguntava. Sua terapeuta dizia que talvez ela precisasse prestar mais atenção às pessoas a sua volta, mas por mais que se esforçasse não via ninguém.
Passou xampu, lavou os cabelos cacheados, enxaguou, passou o condicionador, passou o sabonete pelo corpo, escovou os dentes, retirou o condicionador, e saiu do chuveiro.
Aquele sonho ainda em sua mente.
Como queria que pelo menos parte daquilo se tornasse real!
Foi até o guarda roupa, pegou a primeira calça e a primeira blusa que viu, abriu a gaveta e vestiu a primeira lingerie que viu , olhou no espelho e se achou sexy.
Sem perceber, pegou o conjuntinho preto que mais valorizava seu corpo, e decidiu que merecia aquilo!
Vestiu a calça a blusa o sapato, secou os cabelos, passou o rimel, a sombra iluminadora, o baton hidratante, e se olhou no espelho.
Sentiu-se bonita, e lembrou do sonho.
Mas logo, logo sua razão a trouxe de volta como sempre fazia: - Juliana, isso foi só um sonho, repetiu para si.
Saiu ainda meio inebriada com aquelas visões, foi até o estacionamento, pegou o carro, e partiu.
Tinha resolvido tomar café naquela padaria lindíssima próximo ao seu trabalho, pois hoje merecia também um bom café!
Enfrentou o trânsito de São Paulo meio anestesiada, chegou uma hora depois. Entrou na padaria, sentou-se, puxou o livro que estava lendo e não olhou nem para o balcão com as guloseimas que mais gostava.
Pediu um capuccino, um pão com manteiga e uma água.
Abriu seu livro, mas as letras não faziam sentido naquela manhã, então lembrou-se da terapeuta: Olhe pros lados!
Resolveu aceitar o desafio.
Começou a prestar atenção a cada pessoa dentro daquele lugar. Todos pareciam tão felizes e com a vida tão equilibrada, que ela começou a se entristecer.
Mas aquele exercício de observação também tinha haver com o sonho... continuou.
Depois de 20 minutos, percebeu que tudo o que estava imaginando sobre aquelas pessoas, era o que ela gostaria de ter em sua própria vida.
De novo a terapeuta apareceu em sua mente: - Juliana, lembre-se que projetamos o que queremos lá fora... - Ai terapeuta! Sai de mim!
Pegou o livro colocou na bolsa, pegou o casaco e foi em direção ao caixa tão distraída que não percebeu Rodrigo vindo em sua direção, com a mesma distração...
Uma trombada!
Sua bolsa e casaco caíram, Rodrigo derramou todo café em si mesmo, sua roupa, uma calça social e uma camisa bem passada, ficaram praticamente ensopados.
A primeira reação de Juliana foi xingar: - Olha por onde anda!
Mas quando seus olhos encontraram os dele, ela calou-se e teve certeza. Era ele!
Não soube explicar. Mas o sonho voltou com tudo. Era ele!
Como podia ser?
Rodrigo também abriu a boca pra falar, e também calou-se.
Ficaram ali, olhando um para o outro sem conseguir sair do lugar.
De repente foram trazidos para a realidade, pelas vozes que ouviam ao longe quando se deram conta de onde estavam.
Ajudaram-se e saíram do caminho.
Falaram juntos: - É você!
Sem entender muito bem o que estava acontecendo Juliana ofereceu-se para ajudar Rodrigo a se enxugar do café derramado.
Não falaram uma palavra mais.
Sabiam o porquê de estarem ali naquele momento, daquele jeito, num encontro tão por acaso.
Mais uma vez se olharam nos olhos e foi Juliana quem tomou coragem: - Eu te conheço.
E Rodrigo imediatamente completou.
– Você é a mulher que apareceu no meu sonho desta noite. Foi por isso que estava tão distraído. Hoje desde que acordei você está em minha mente. Estou meio confuso com isso.
Juliana tentou achar o que dizer, mas nada saiu apenas uma lagrima rolou...
Não tinha explicação. O que estava acontecendo? Porque a vida estava lhe pregando esta peça? Sua razão não a deixava em paz.
Foi Rodrigo dessa vez quem quebrou o silencio.
- Eu sei seu nome...
Saíram juntos sem dizer nada, sem nenhum comentário.
Sabiam que a partir daquele momento nunca mais se largariam, sabiam que os sonhos que cada um teve naquela noite, se completavam, e isso bastava.
Patricia Pereira
11/05/2008
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